IPCA-15 de setembro: alimentos voltam a subir

Quinta à tarde, você abre a planilha da compra e o fornecedor já mandou no WhatsApp que “o tomate deu uma subida”. O IPCA-15 de setembro (a prévia da inflação oficial, medida pelo IBGE) acabou de sair e diz que ele não está inventando. Só que o número do IBGE é preço de supermercado e feira, e o que chega na sua doca é outra conta.
Este texto separa as duas coisas. Primeiro o que o índice mostrou nos alimentos, depois o que dá para aproveitar dele na compra da semana, sem confundir o preço que o consumidor paga com o preço que você paga. Quem acompanhou o IPCA de julho vai notar que a direção virou.
O que o IPCA-15 de setembro mostrou nos alimentos?
A alimentação no domicílio subiu 0,38% no IPCA-15 de setembro, depois de recuar 0,97% em agosto, segundo o IBGE, que divulgou o resultado em 25 de setembro de 2026. O índice geral foi de 0,70%, puxado sobretudo pela energia elétrica residencial (alta de 7,42%).
Por “alimentação no domicílio” o IBGE entende a comida comprada para consumo em casa (supermercado, feira, açougue). Os preços foram coletados de 15 de agosto a 15 de setembro e comparados com os de 16 de julho a 14 de agosto. Ou seja, o número já tem duas semanas de idade quando você o lê, e isso pesa na hora de decidir.
Entre os itens que o IBGE destaca na alimentação em casa, três subiram e três caíram:
| Item (consumidor, Brasil) | Variação no IPCA-15 de setembro | O que olhar na sua cotação |
|---|---|---|
| Tomate | alta de 20,76% | Preço do tomate nas três últimas entregas, item por item |
| Arroz | alta de 2,39% | Preço do saco e a data do último reajuste do fornecedor |
| Carnes | alta de 1,30% | Corte a corte, porque o grupo esconde cortes que subiram mais e menos |
| Feijão carioca | queda de 6,33% | Se o fornecedor repassou a queda ou segurou o preço antigo |
| Cebola | queda de 4,41% | Preço da cebola contra o último pedido, antes de fechar o novo |
| Café moído | queda de 1,36% | Condição do contrato atual, se houver preço travado |
Dois grupos do mesmo relatório ajudam a completar o quadro: aves e ovos recuaram 1,26% no mês, e óleos e gorduras subiram 0,53%. Leite e derivados avançaram 0,30% e panificados, 0,29%. São variações pequenas, e é exatamente por isso que ninguém repara nelas na doca.
O índice do consumidor serve para a compra do restaurante?
Serve como direção, não como preço. O IPCA-15 mede o que famílias de 1 a 40 salários-mínimos pagam em onze áreas urbanas, e o seu fornecedor cobra preço de atacado, de distribuidor ou de atacarejo, com embalagem, prazo e frete que o índice não enxerga.
Isso muda o uso do número. Tomate com alta de 20,76% no consumidor não significa que a caixa do seu fornecedor subiu 20,76%. Pode ter subido mais, ou menos, se o seu fornecedor segurou parte. Só a sua nota diz qual dos dois aconteceu.
Também não confunda preço de tabela (o que o fornecedor anuncia) com preço negociado (o que ficou combinado para a sua casa, com prazo e condição). O índice do IBGE é um retrato de preço de prateleira. A sua decisão de compra acontece sobre o preço negociado, e o repasse de uma alta do varejo pode chegar à sua doca com atraso, ou não chegar.
Quando a sua casa acompanha o item de perto, o IPCA-15 vira alarme útil. Quando acompanha de memória, vira desculpa para os dois lados da mesa. Quem registra o preço de cada entrega consegue cobrar o fornecedor com a nota na mão, e isso aparece logo na conferência de sexta, quando você compara o que chegou com o que foi combinado. Para saber quanto de cada item entra no prato, use a ficha técnica; o texto sobre como fazer a ficha técnica de um prato mostra a montagem.
Quanto essa alta pesa na compra da semana?
Depende de quanto o item pesa na sua ficha técnica e de quanto do índice o fornecedor repassa. Para ter ordem de grandeza, use uma conta ilustrativa com a hipótese escrita: uma casa que compra 30 kg de tomate por semana a R$ 8,00 o quilo, e cujo fornecedor repassasse integralmente os 20,76%, pagaria R$ 1,66 a mais por quilo. Isso dá cerca de R$ 50 por semana, perto de R$ 200 no mês.
O volume e o preço dessa conta são hipótese de exemplo, não dado do IBGE. O percentual, esse sim, vem do índice. Troque os números pelos da sua última nota e a conta fica sua em dois minutos.
Para uma hamburgueria com delivery, o item que merece olhar é a carne. Se a casa gasta R$ 12.000 por mês com carnes (hipótese) e o grupo subiu 1,30% no consumidor, o efeito, se repassado por inteiro, seria de R$ 156 no mês. Parece pouco, e para essa conta é pouco. O problema aparece quando a alta de carne vem junto com a de tomate e a de arroz no mesmo prato, e ninguém somou. Sobre a carne, vale ler a análise do boi gordo, que subiu 10% no ano, porque ela olha o preço do boi no atacado, que é o que o seu açougue sente primeiro.
No self-service por quilo, o arroz é o item de maior giro. Os 2,39% do IPCA-15 combinam com o que o blog já mostrou sobre o arroz que sobe há seis semanas. Aqui a pergunta prática é se você trava o preço por três a quatro semanas ou compra o que precisa, e a resposta depende do espaço que tem para estocar e do prazo que o fornecedor aceita.
Do lado das quedas, o feijão carioca (menos 6,33%) e a cebola (menos 4,41%) abrem espaço para cobrar. Se o seu fornecedor ainda cobra o preço do mês passado, mande a mensagem hoje. Uma frase curta basta: “O preço do feijão caiu no consumidor segundo o IBGE; consegue rever a tabela para a entrega de terça?”. Para o feijão-preto, que segue o caminho contrário, veja o texto sobre o estoque apertado da safra.
O café moído caiu 1,36% no consumidor, uma variação pequena demais para renegociar sozinha. Ela ganha sentido junto com o indicador do Cepea, tratado em preço do café cai: negocie com o fornecedor.
Um último item da lista, que não é alimento mas entra na sua conta: a energia elétrica residencial subiu 7,42% no mesmo índice, por causa do fim do Bônus de Itaipu. A tarifa do restaurante segue regras próprias, mas a pressão no custo fixo é real, e ela está em energia sobe 7,42% e pressiona o custo do restaurante.
O que o IPCA-15 diz sobre o preço do prato que você vende?
A alimentação fora do domicílio subiu 0,44% em setembro, e a refeição acelerou de 0,25% em agosto para 0,38%. O lanche foi no caminho oposto: desacelerou de 0,75% para 0,44%, informa o IBGE no mesmo relatório.
Em 12 meses, a alimentação fora do domicílio acumula 6,08% no IPCA-15, contra 4,40% do grupo alimentação e bebidas como um todo. O cardápio, no agregado do país, vem subindo mais do que a comida em geral. Isso não diz nada sobre a sua margem, que depende do seu prato, mas dá uma régua: se você reajustou o cardápio abaixo de 6% no último ano, vale abrir a ficha técnica e conferir se o custo do prato andou mais.
Quem reajusta preço de venda precisa distinguir markup (o multiplicador sobre o custo) de margem (o que sobra do preço de venda depois do custo). Elas mudam de jeito quando o custo sobe, e o texto markup: como calcular o preço de venda do prato mostra a conta com um prato de exemplo.
Cuidado com a pressa. Um índice de um mês não justifica mexer no cardápio inteiro. Ele justifica abrir os cinco pratos que mais vendem, conferir quanto tomate, arroz e carne entram em cada um, e decidir prato a prato.
O que fazer na compra desta semana?
Cinco passos, todos possíveis com planilha, caderno e WhatsApp:
- Separe as últimas três notas de tomate, arroz e carne e escreva o preço pago por quilo ao lado da data. Sem esse histórico, nenhum índice vira argumento.
- Peça preço de tomate a pelo menos dois fornecedores, com validade de sete dias e entrega na terça. Anote quem respondeu e em quanto tempo.
- Mande ao fornecedor de feijão carioca e de cebola a mensagem pedindo revisão de tabela, citando a queda do IBGE, e registre a resposta por escrito, no próprio WhatsApp.
- Decida o arroz com data: ou você trava por quatro semanas com prazo combinado, ou compra a cada semana. Escreva a decisão e a data de revisão na planilha.
- Na semana seguinte, compare a nota que chegou com a tabela combinada, e anote a diferença. Se o preço passou do combinado, é a conferência de sexta que pega. Se o seu controle é em sistema, o mesmo histórico sai pronto por produto.
O critério para saber se funcionou é simples: na sexta seguinte você precisa conseguir dizer, para cada um dos três itens, quanto pagou a mais ou a menos que na semana anterior e quem avisou da mudança. Se não consegue, o histórico ainda está incompleto.
O IPCA-15 de setembro é um sinal de que os dois recuos seguidos da alimentação em casa, em julho e agosto, ficaram para trás. Ele não manda em nenhum preço da sua compra. Quem tem nota, data e preço anotados usa o índice como ponto de partida para uma conversa com o fornecedor. Quem não tem acaba aceitando o número que o WhatsApp mandar. O próximo passo natural é reler o que a prévia de agosto já indicava e conferir se a sua lista de compras acompanhou.
Como o Kotari ajuda
Dois pontos do texto são rotina de sistema: guardar o preço pago por produto e comparar com o período anterior. No Kotari, o histórico de preço do produto mostra o que foi pago nos últimos 12 meses, por fornecedor, com base nas compras reais. A análise de variação de preço aponta o que subiu e o que caiu contra o período anterior equivalente. Na hora de cotar, o último preço de compra do produto aparece junto da cotação.
Faz sentido para quem compra de vários fornecedores toda semana e já perdeu tempo juntando nota em planilha. Para uma loja com três fornecedores, a planilha do passo 1 resolve, e o resultado é o mesmo. Veja como funciona em funcionalidades.
Perguntas frequentes
O que é o IPCA-15?
É a prévia do IPCA, a inflação oficial medida pelo IBGE. A diferença está no período: o IPCA-15 compara preços coletados de meados de um mês a meados do seguinte, o IPCA fecha o mês cheio. Os dois usam a mesma metodologia.
Dá para usar o IPCA-15 para reajustar o preço do meu cardápio?
Dá para usar como referência, não como regra. O índice de alimentação fora do domicílio mede o preço de refeições em geral, e o seu custo depende dos itens da sua ficha técnica. Reajuste prato a prato.
O preço que o fornecedor cobra acompanha o IPCA-15?
Nem sempre, e raramente no mesmo mês. O fornecedor cobra preço de atacado ou distribuição, com frete e prazo próprios, e o repasse costuma levar uma ou duas semanas. Compare sempre com a sua última nota.
Dá para controlar variação de preço sem sistema?
Dá, com planilha. Anote data, fornecedor, produto, unidade e preço de cada entrega e compare com a entrega anterior. O que a planilha não faz sozinha é avisar quando uma compra mudou de embalagem, e isso pode fingir uma alta que não existe.
De quanto em quanto tempo devo cotar tomate, arroz e carne?
Itens de preço instável, como tomate, pedem cotação a cada semana ou a cada compra. Itens de preço mais estável, como arroz fora de períodos de alta, podem ser cotados a cada duas ou quatro semanas, com data de revisão marcada.
Qual a diferença entre prazo de entrega e prazo de pagamento?
Prazo de entrega é o tempo entre o pedido e a chegada da mercadoria na doca. Prazo de pagamento é o tempo que você tem para pagar a nota depois de receber. Quando o preço sobe, vale negociar os dois: às vezes é mais fácil ganhar prazo de pagamento do que desconto.
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