Mercado

iFood tem novo concorrente: veja se vale migrar

3 de setembro de 2026 Joice Lima
Bolsa térmica de entrega fechada sobre o banco de uma scooter, à noite, com luzes da rua desfocadas ao fundo

Duas notícias divulgadas pela Abrasel na mesma terça-feira, 2 de setembro de 2026, mudam o tabuleiro do delivery. Primeiro, o Tribunal do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) rejeitou o recurso da Keeta e decidiu aprofundar a investigação sobre práticas do mercado de delivery por aplicativos, incluindo a Abrasel como terceira interessada no processo. No mesmo dia, a Magalu anunciou o Magalu Delivery, um aplicativo que reúne nove plataformas regionais de entrega, entre elas o aiqfome, para brigar com o iFood em cidades de porte médio e pequeno.

Nenhuma das duas notícias obriga você a trocar de aplicativo amanhã. As duas juntas, porém, colocam uma pergunta concreta na mesa de quem vende comida por delivery: vale testar um canal novo agora, ou é melhor esperar pra ver no que dá? O problema é que a maioria das casas não tem uma rotina pra responder isso com dado, só com impressão. A operação entra num aplicativo porque “todo mundo usa”, fica anos sem revisar o que aquele canal realmente custa e só presta atenção quando o extrato do mês vem mais magro que o esperado. Já o próprio iFood tinha mexido nas regras de entrega própria em julho, e o mercado segue se mexendo.

Este texto explica o que mudou nas duas frentes, o que isso pesa pra uma casa de uma a cinco lojas e como montar um teste de canal de delivery sem virar refém de “achismo” na hora de decidir.

O que mudou no mercado de delivery essa semana?

Duas coisas: o Cade vai investigar mais a fundo as práticas do setor de delivery, com a Abrasel participando do processo, e a Magalu lançou um aplicativo concorrente ao iFood voltado a cidades menores.

No processo do Cade, o tribunal rejeitou o recurso apresentado pela Keeta e determinou o prosseguimento da apuração sobre práticas adotadas no mercado de delivery por aplicativos. A Abrasel foi aceita como terceira interessada, o que dá à entidade espaço formal pra levar à autoridade a experiência concreta de bares e restaurantes nessa relação. Em nota à Abrasel, o presidente-executivo da entidade, Paulo Solmucci, disse que “os restaurantes são parte diretamente afetada pelas dinâmicas concorrenciais” e pediu celeridade na coleta e análise dos dados, já que o setor não pode esperar anos por uma resposta.

Já o Magalu Delivery nasceu da união de nove aplicativos regionais, batizada de Raiz: aiqfome, Plus Delivery, Quero Delivery, Uai Rango, Pede.ai, Alboo, Qfome, Pedidos10 e Amo Ofertas. Juntos, esses aplicativos somam presença em mais de mil cidades e uma rede de 70 mil parceiros entre restaurantes, mercados, farmácias e petshops. Cada aplicativo continua operando sob sua própria marca na cidade onde já atua, mas passa a aparecer também dentro do hub da Magalu, que deixa o comerciante gerenciar cardápio, preço e pedido num único painel em vez de repetir isso em cada plataforma parceira. O foco declarado é município de 15 mil a 200 mil habitantes, faixa historicamente menos disputada pelos grandes aplicativos. A primeira etapa cobre cidades de Minas Gerais, Paraná e São Paulo, e a Magalu não divulgou o valor investido na iniciativa. Segundo a Abrasel, o iFood hoje detém mais de 80% do mercado brasileiro de delivery.

Por que isso importa pro seu restaurante de bairro ou do interior?

Importa porque, com um único aplicativo dominando mais de 80% do mercado, quem depende de delivery tem pouquíssima margem pra negociar condição, prazo ou taxa. Um segundo canal de peso muda esse cálculo, mesmo que devagar.

Pense numa hamburgueria de bairro em capital que hoje só vende por um aplicativo: se o pedido cair porque o app mudou algo no algoritmo de visibilidade, não existe pra onde migrar rápido. Numa pizzaria de uma cidade de 40 mil habitantes no interior de São Paulo, o cenário é diferente: pela primeira vez ela tem, além do aplicativo grande, uma opção regional com apoio de uma rede maior por trás. Isso não garante que o pedido novo vai substituir o antigo, mas cria uma alternativa de fato, o que é raro nesse mercado. Para uma padaria com confeitaria que só entrega aos fins de semana, o efeito é menor no curto prazo, mas o mesmo raciocínio vale: quanto mais opção de canal existir, menos peso cada aplicativo isolado tem sobre o resultado do mês.

A investigação do Cade caminha na mesma direção, só que pelo lado da regulação: se a apuração confirmar prática que prejudica o restaurante, isso pode se traduzir em mudança de regra daqui a alguns meses. Não é pra tomar decisão hoje com base numa investigação que ainda está em andamento, mas é pra acompanhar, porque afeta diretamente a condição comercial que você recebe num setor que fatura recorde e ainda assim sente cada ponto de custo.

Vale migrar ou testar uma plataforma nova agora?

Depende de quanto seu delivery já rende hoje e de quanto tempo você tem pra tocar mais um canal. A resposta raramente é “trocar tudo”: é testar um recorte pequeno primeiro.

Migração completa costuma ser a decisão errada logo de cara: ela troca uma base de clientes já formada por uma incerteza, e o cardápio duplicado em duas plataformas dá trabalho de manter atualizado. O caminho mais seguro é testar, não migrar: manter o canal principal funcionando normalmente e abrir a plataforma nova em paralelo, com uma parte do cardápio, por um período definido. Numa churrascaria que hoje só faz delivery esporádico, o teste pode até ser o primeiro contato real com esse tipo de canal, sem pressão de decidir rápido. Já numa hamburgueria que vive de delivery, o teste serve pra medir se o segundo canal realmente traz pedido incremental, e não só pedido que sairia pelo canal de sempre de qualquer jeito.

O critério pra decidir não é “gostei do aplicativo”: é comparar, ao fim do período de teste, quanto pedido novo entrou, qual foi o custo real por pedido e se o prazo de repasse combinado foi cumprido na prática.

Quanto cada aplicativo de delivery realmente custa no seu prato?

Custa mais do que a taxa de comissão anunciada. O custo real de um canal de delivery é a soma da comissão, das taxas extras (entrega, processamento de pagamento, impulsionamento pago) e do imposto que incide sobre essa venda, dividida pelo valor líquido que sobra por pedido.

É aqui que mora o erro mais comum: comparar só a comissão de tabela entre dois aplicativos e ignorar o resto. Uma pizzaria que compara “12% de um lado, 15% de outro” sem somar taxa de entrega e impulsionamento está comparando dois números que não representam o custo de verdade. O jeito de enxergar isso é simples, mesmo sem sistema: pegue uma semana de vendas por aplicativo, some tudo o que o aplicativo descontou (não só a comissão), e divida pelo faturamento bruto daquele canal na mesma semana. O número que sobra é a taxa efetiva, e é ela que deve entrar na comparação entre um aplicativo e outro, nunca a taxa anunciada isoladamente.

Para uma cafeteria que vende também por delivery aos sábados, essa conta simples costuma revelar que o canal “mais barato” na propaganda não é o mais barato na prática, porque cobra separado por coisas que o outro já embute. Sem fazer essa conta, qualquer decisão de trocar ou testar canal fica baseada em achismo, o mesmo erro de comemorar um lucro maior sem parar pra ver de onde ele veio.

Quais erros mais comuns ao avaliar um canal de delivery novo?

Três aparecem com mais frequência: aceitar prazo de repasse verbal sem registrar, testar o canal novo com o cardápio inteiro de uma vez e abandonar o teste antes do prazo combinado.

Prazo de repasse combinado só por telefone ou por mensagem de voz não vira prova de nada quando o pagamento atrasa. O combinado precisa estar escrito, seja em contrato, seja numa troca de mensagem de texto que você guarda, o mesmo princípio de travar por escrito o combinado com o fornecedor de insumo quando o mercado está instável. Testar com o cardápio inteiro de uma vez, por sua vez, tira o controle da mão de quem está avaliando: fica impossível saber se o resultado bom ou ruim veio do canal ou de um item específico que vendeu mais ou menos naquela semana. E abandonar o teste antes do prazo, geralmente depois de um dia fraco, descarta um canal por causa de uma variação normal, não por um problema real da plataforma.

O erro mais comum num bar de petiscos que nunca usou delivery é justamente pular a etapa de teste e ir direto pra ativação completa, porque “é só um aplicativo a mais”. Um hotel com café da manhã que quer vender marmita executiva por delivery ao meio-dia enfrenta o mesmo risco: sem recorte e sem prazo definido, não dá pra saber se valeu a pena.

Critério Por que importa Como checar antes de ativar
Comissão + taxas extras A taxa de tabela raramente é o custo final por pedido Peça a lista completa de taxas por escrito, não só a comissão
Prazo de repasse Define quanto tempo o dinheiro do pedido fica fora do caixa Confirme o prazo em contrato ou mensagem registrada
Área de cobertura na sua cidade Um app “regional” pode ainda não cobrir seu bairro Simule um pedido de teste no seu endereço antes de assinar
Política de estorno e disputa Define quem perde quando o pedido dá errado Peça o fluxo de reembolso por escrito com prazo definido
Exclusividade de contrato Alguns acordos travam você a um único canal por período Leia a cláusula de exclusividade antes de assinar qualquer coisa

O que fazer esta semana com seus canais de delivery

As ações abaixo servem tanto pra quem nunca testou um canal novo quanto pra quem já usa mais de um. O princípio é o mesmo de revisar a cotação quando o preço de um insumo dispara: canal parado é custo que sobe sem avisar.

  • Some, numa planilha ou caderno, tudo o que cada aplicativo descontou numa semana de vendas (comissão, taxa de entrega, impulsionamento) e calcule a taxa efetiva por canal, não a taxa de tabela.
  • Se for testar um aplicativo novo, escolha de cinco a dez itens do cardápio para o teste, nunca o cardápio inteiro, e marque na agenda a data de encerramento do teste antes de começar.
  • Peça por escrito, em contrato ou mensagem que você guarda, o prazo de repasse e a política de estorno prometidos pelo aplicativo novo antes de ativar qualquer coisa.
  • Confirme que o aplicativo regional já cobre seu endereço de fato, simulando um pedido de teste, antes de anunciar o canal novo pro cliente.
  • Aproveite a revisão de custo do delivery para também revisar a cotação com os fornecedores de insumo do mês, comparando preço de mais de um fornecedor lado a lado, seja em planilha ou em um sistema de cotação.

O critério pra saber se funcionou: ao fim do prazo de teste marcado, compare pedido incremental, taxa efetiva e cumprimento do prazo de repasse entre o canal novo e o de sempre, e só amplie o canal novo se os três números baterem melhor, não só um deles.

Provavelmente essa disputa vai continuar. A investigação do Cade ainda não tem prazo de conclusão, e a Magalu não é a primeira nem deve ser a última a tentar disputar espaço com o iFood em nichos que os grandes aplicativos deixaram de lado.

O que muda pra você não é acompanhar cada notícia do setor, é ter a rotina de medir o custo real de cada canal pronta pra quando a próxima opção aparecer. O consumo em bares e restaurantes já cresce mais no interior do que nas capitais, exatamente o público que o Magalu Delivery está mirando primeiro.

Como o Kotari ajuda

A taxa que sai pelo canal de delivery você não controla sozinho. O preço que paga pro fornecedor de insumo, sim, e é aí que uma rotina de compra organizada compensa parte da margem que aperta do outro lado. No Kotari, dá para pedir cotação a mais de um fornecedor ao mesmo tempo e comparar lado a lado quem oferece o melhor preço por item, sem depender de troca de mensagem manual. Também dá para juntar os pedidos de mais de um setor numa única avaliação antes de cotar, o que ajuda a comprar com mais volume e mais poder de negociação em vez de cotar cada pedido isolado. Isso não substitui a conta que você precisa fazer sobre o canal de delivery, mas ajuda a proteger a parte da conta que está mesmo ao seu alcance. Quem só compra de um fornecedor fixo e sem variação de preço não sente tanta diferença; quem já cota com mais de um, sim. Mais em Funcionalidades do Kotari e em Kotari para restaurantes.

Perguntas frequentes

Dá para usar mais de um aplicativo de delivery ao mesmo tempo?

Dá, e é o caminho mais seguro pra testar um canal novo sem abrir mão do canal principal. A maioria dos aplicativos não exige exclusividade, mas leia essa cláusula no contrato antes de assinar.

O Magalu Delivery já está disponível no meu município?

Só se a sua cidade estiver na primeira etapa do lançamento, hoje concentrada em municípios de Minas Gerais, Paraná e São Paulo com população entre 15 mil e 200 mil habitantes. Fora dessa faixa e dessas praças, o aplicativo regional que já opera aí segue funcionando normalmente.

Vale a pena sair do iFood?

Sair de vez raramente vale a pena, porque troca uma base de clientes formada por uma incerteza. Testar um canal a mais, com recorte de cardápio e prazo definido, é a forma mais segura de descobrir se vale ampliar.

O que muda de fato com a investigação do Cade sobre delivery?

Por enquanto, nada muda na prática: o tribunal decidiu aprofundar a coleta de dados antes de concluir o caso. O que muda é que a Abrasel agora participa formalmente do processo como terceira interessada, levando a experiência de bares e restaurantes à discussão.

De quanto em quanto tempo revisar os canais de delivery?

A cada 90 dias é um intervalo razoável para comparar taxa efetiva, volume de pedido e cumprimento de prazo entre os canais que você já usa, e a cada vez que um concorrente novo relevante entrar na sua região.

Testar uma plataforma nova prejudica minha avaliação no aplicativo atual?

Não existe apuração pública mostrando isso, e a resposta muda de aplicativo pra aplicativo. Antes de testar, vale checar diretamente com o suporte do canal atual se dividir o cardápio entre plataformas afeta o posicionamento no app.

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