Recuperação judicial do Habib’s: o alerta do crédito caro

O grupo dono do Habib’s, da Ragazzo e das churrascarias Tendal pediu recuperação judicial com dívida de R$ 265,2 milhões. A decisão que está na mesa para quem compra toda semana não é sobre o Habib’s: é sobre quanto risco de crédito sua operação está carregando com fornecedor, banco e cartão, num momento em que o dinheiro está caro para todo mundo.
O que aconteceu
O Grupo Gennius, controlador das marcas Habib’s, Ragazzo e Tendal Grill, protocolou pedido de recuperação judicial na segunda-feira (24), aceito pela Justiça de São Paulo na quarta-feira (26), segundo a CNN Brasil. A dívida total é de R$ 265,2 milhões, sendo R$ 22,3 milhões trabalhistas e R$ 241,7 milhões em créditos quirografários, a maior parte financeira. O processo reúne 178 pessoas jurídicas, entre elas 119 lojas Habib’s, 26 unidades Ragazzo e 6 churrascarias Tendal. A KPMG foi nomeada administradora judicial pelo juiz da 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, e o grupo tem 60 dias, sem prorrogação, para apresentar um plano de recuperação.
Segundo a Agência Brasil, o grupo atribui a crise aos efeitos da pandemia, à mudança de hábito trazida pelo crescimento do delivery, à queda de fluxo em shoppings e centros urbanos e à alta da Selic, hoje em 15% ao ano, que encareceu o serviço da dívida. Em nota, a empresa disse que a medida faz parte de “seu processo de reestruturação financeira, com o objetivo de preservar a sustentabilidade e a evolução do negócio no longo prazo” e que as lojas seguem operando normalmente.
O que isso muda no seu custo
Repare na proporção da dívida: R$ 22,3 milhões são trabalhistas, R$ 241,7 milhões são financeiros. A crise não nasceu de folha de pagamento. Nasceu de dinheiro caro em cima de uma margem que já estava apertada por queda de fluxo e mudança de canal de venda. Isso vale para uma rede de mais de 150 lojas e vale igual para quem tem uma casa só: o custo do crédito hoje pesa mais do que pesava há dois anos, e pesa em cima de qualquer dívida que sua operação carregue, banco, cartão de crédito empresarial ou prazo estendido com fornecedor.
A decisão prática está em dois lugares. Primeiro, sua própria exposição: quanto da sua operação depende de crédito caro para girar, e o que acontece na sua margem se esse custo subir mais um ponto. Segundo, a exposição do seu fornecedor: um fornecedor grande e aparentemente sólido também pode estar alavancado, e o mesmo aperto de juros que derrubou uma rede de food service pode atrasar entrega, reduzir prazo de pagamento ou empurrar reajuste para o seu lado do balcão.
Há um trade-off nisso que vale nomear. Travar preço com contrato longo protege contra reajuste, mas tira a flexibilidade de trocar de fornecedor se o dele der sinal de aperto no meio do caminho. Estender prazo de pagamento alivia o caixa agora, mas custa capital parado do fornecedor, que ele cobra de volta em preço ou em prioridade de entrega quando o giro dele aperta. Nenhuma das duas opções é errada; a errada é escolher sem calcular qual custo você está disposto a pagar.
O que NÃO fazer aqui é tratar isso como caso isolado de gestão ruim de uma marca famosa. O padrão é setorial: dinheiro caro, margem fina, qualquer solavanco na demanda vira problema de caixa antes de virar problema de venda. Também não é hora de esticar ainda mais o prazo pedido ao fornecedor só para aliviar o caixa deste mês, sem calcular se isso volta como reajuste de preço ou perda de desconto.
O que fazer na próxima compra
- Hoje: liste os fornecedores que respondem por mais de 30% do seu volume mensal de compra. Se algum concentra demais, comece a cotar um segundo nome como plano B, mesmo sem trocar agora.
- Hoje: na próxima conversa, pergunte ao fornecedor se o prazo de pagamento dele mudou nos últimos meses. Pedido de antecipação ou redução de prazo é sinal de aperto no caixa dele, não no seu.
- Esta semana: registre por escrito, em planilha, caderno ou até no histórico do WhatsApp, qualquer preço combinado por período fechado. Sem isso, reajuste no meio do prazo vira palavra contra palavra.
- Antes de fechar o mês: calcule quanto custaria, em reais, se o prazo de pagamento que você pede ao fornecedor virasse juro cobrado por fora. Muitas vezes esticar prazo é mais caro que um desconto à vista.
- Se cotar com mais de um fornecedor ao mesmo tempo, compare as respostas lado a lado antes de decidir, seja numa planilha, seja em sistema. Decisão tomada sem comparar é decisão tomada no escuro.
Como o Kotari ajuda
Dá para cotar com mais de um fornecedor ao mesmo tempo e comparar as respostas lado a lado, sem depender de um nome só. Quando a cotação é finalizada, o preço trava: o fornecedor não muda o valor depois que ela já virou pedido. E se a entrega chegar errada ou incompleta, a divergência fica registrada no recebimento, com prova documentada para cobrar do fornecedor depois. Mais em funcionalidades e no glossário.
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